Como uma gérbera: as dores são internas



Por Jefferson Sampaio

Às vezes sinto que estou morrendo por dentro, que vou morrendo com um sorriso no rosto, com uma casca que não consegue transparecer isso. Minhas pétalas vão ficando intactas enquanto vou apodrecendo internamente.

Não é fácil reconhecer isso, mas é necessário. As feridas são grandes e a angústia uma constante. Isso tudo dói. Meus demônios internos verberam-se, constantemente ao som mórbido de uma tarde de calor sem vento.

Novamente me sinto aéreo. As coisas estão acontecendo e eu não as controlo. Isso tudo dói. Ao mesmo tempo em que tudo parece parado, sinto como se as dores estivessem evoluindo, ela não para, não cansa, não descansa, vai corroendo como se fosse um córrego indo em direção ao rio. Parece que meu estômago foi corroído, ele geme a todo momento, uma gastura horrível de que não está nada bem. 

As coisas acontecem de uma forma tão independente que eu me culpo por não conseguir reagir. A culpa toma conta de mim. Não consigo me perdoar, os perdões estão embrulhados em meu estômago. Quero tanto o bem para as pessoas ao meu redor que esqueço de pegar um pedacinho de doce para mim. Mentalizo sempre que as coisas vão ficar bem, elas precisam ficar. Eu não tenho conseguido suportar isso tudo, está difícil, muito difícil.

Sinto-me como um verme rastejando na lama, a lama que o afunda é a mesma que lhe permite viver. As dores que sinto são o sinal de que estou vivo. E dói viver, como dói. Nunca imaginei que um dia falaria isso, mas preciso ser sincero comigo. Já basta fantasiar o universo para os outros, eu necessito de conhecer a minha podridão. Soa tão forte essa palavra, mas é essa mesma. Guardo uma maçã podre comigo, ela fede, maltrata-me, mesmo tendo seu exterior brilhante, reluzente, de tom vermelho carmim, seu interior está podre. Não é assim por causa de sua querência, mas por causa da vida. Pode ser que isso mude, por isso ainda a guardo. Pode ser que nunca mude, por isso peço aos céus força para conseguir me desfazer dela ou pelo menos de meu apego.

Eu fujo dessa maçã. Ela consegue despertar o pior de mim e isso é torturante. Eu preciso vencer isso. Já não dá para viver nesse processo contínuo de auto-tortura, não sei se essa palavra leva hífen, pouco me importa, talvez a presença do hífen me conforte, saber que algo ainda pode me separar dessa tortura é confortante. Eu me apego muito aos detalhes, quisera eu que não fosse assim, talvez não notaria aqueles lábios finos, bem desenhados, ressecando-se em meio a sequidão do tempo, ou não veria aquele sinal no branco do olho direito, ou as unhas cortadas de qualquer jeito, sem cuidado, sem zelo... 

É sempre cerimonioso: o preparo, a recepção, o cuidado, a entonação, a palavra, as colocações, o respirar, o sorrir, o chorar... Cerimônias fúnebres que vão corroendo por dentro. Eu me preparo para morrer um pouquinho. Sei que não deveria ser assim, mas minhas dores são tão poéticas que por vezes implorei beijos seus. Negados. Parece que o universo me ama, por isso ele me separa e afasta de tudo, queria viver em paz, ter paz. Não entendo o motivo de ser tão difícil encarar isso tudo. Preciso ser menos intenso, preciso urgentemente. Já não basta falar de amor, os corvos sorriem disso tudo, novamente sou uma piada, novamente estou romantizando a dor, por outra vez estou aqui me lamentando de algo que já era para ser pauta vencida. Eu preciso vencer minhas pautas.

[...]

Ao mesmo tempo em que tudo vai sendo corroído por dentro, algo tem me feito forte. Me afundo em minhas lágrimas, me afogo nelas e quando sinto que estou falecendo, sempre sou puxado para fora. Não entendo o motivo de tamanho amor por mim, eu um ser tão pequeno, minúsculo, insignificante. 

A falência do amor me permite viver. Ao falecer, ele se multa e retorna com uma nova roupagem. Enquanto tudo corta e dói, o amor tenta sempre manter as pétalas da gérbera intactas. Enquanto tudo vai apodrecendo dentro de mim, o amor me mantém de pé, mesmo eu achando que tudo vai desabar a qualquer momento, Ele me segura. E o amor que mantém minhas pétalas intactas, contamina meu redor e aos pouquinhos vai curando minha podridão. Eu preciso de minhas pétalas vivas encantando o mundo para conseguir me manter belo. Mesmo podre por dentro, estarei forte. E se eu morrer que seja para trazer vida. 

[...]

Estou deitado em um sofá macio enquanto escrevo isso. Ele me olha de longe. Seu olhar é de amor, de piedade e de decepção. Ele me faz forte, eu destruo minha fortaleza. Eu fujo de Sua presença para deixar aflorar a minha humanidade, e por isso vou apodrecendo. Eu não consigo olhar em Seus olhos, somente choro poucas lágrimas de dor. Ele se levanta e vem em minha direção, Sua presença me soa forte, calafrios tomam conta de mim. Eu ainda não olho em seus olhos. Ele está de joelhos ao meu lado, eu vejo isso de banda, Ele admira cada lágrima que está caindo. Parece que consegue ler o que elas significam, como se fosse uma análise de DNA. Uma sacola mexe no canto da sala, é a confirmação de sua presença. - Você não precisa de confirmações.

Eu conheço as suas dores, os seus medos, eu te leio, eu faço parte de você, eu estou aí, mesmo quando você deseja fugir, eu estou aí. Mesmo sem você querer, eu estou aí. Quando foge de mim, de minhas palavras, de meu abraço, de meu conforto, eu ainda estou aí. Quando respira eu guio o ar, quando se levanta, eu calço seus sapatos, quando se deita eu faço cafuné. E as vezes te curo, para que não morra. Eu vou te puxar sempre, mesmo você estando quilômetros a dentro de um oceano de dor, eu irei sempre te puxar. Eu amei o mundo de tal maneira que me desfiz para te refazer. 

Ele sorri para mim, um sorriso tão doce e aconchegante.

Ah, meu menino. Meu pequeno aprendiz, meu desbravador da vida e dos mistérios dela. Eu te amo tanto, por que se abala por coisas tão pequenas? Eu te fiz para ser mais, você é minha gérbera, alta e imponente. Não deixe as dores cortarem seu caule. Eu estarei sempre aqui, mas as decisões são suas, decida sorrir e ser feliz. Meu menino inocente, por qual motivo chora tanto? Não consegue entender? Eu estou te lavando, eu preciso te lavar. Esse sal tempera as suas marcas e as conservam para que nunca esqueça dos dias de hoje. Sua alma é velha, seu coração é novo, por isso tanto sofre por não controlar a juventude de seu corpo. Meu filho, meu menino inocente, me escute: eu não só te amo, eu faço parte de ti. Em cada parte de seu corpo eu estou. Ninguém conseguirá mudar isso. Eu sou luz e faço parte de você, você é luz, ilumine suas trevas, você pode fazer isso. Eu te amo tanto que me revelo a você, pois ao me revelar a ti, revelo-me ao mundo. Você é instrumento, eu limpo, revigoro, arrumo as rachaduras de seu vaso, você não é vasilha, nunca esqueça isso. Não se abale por tão pouco, sou muito e faço morada dentro de ti, logo você é muito. Não diminua isso, não rache. Não fuja de mim, o meu perdão é eterno. Eu te conheço, eu leio cada micropartícula de seu corpo, todos os dias, em todos os momentos. As vibrações me sinalizam. Eu te conheço antes mesmo de você se conhecer. Entenda isso. Não se envergonhe, não se culpe, se perdoe. Não há lugar para inferiorização, eu habito dentro de ti e te faço santo, pela minha graça. Ah como eu te amo, meu menino de alma velha. Você me conhece, você me ouve, você me entende. Quantas pessoas não querem isso? E por não conseguirem, por não estarem abertas, desvalidam a minha presença. Você nunca precisou de meditações para me perceber dentro de você, eu me revelei pois sabia que me amaria e ofertaria lar. Você me conhece e eu te reconheço como meu menino que eu guardo como a gérbera mais linda de meu jardim. Eu sou grande porque assim você me vê, você é grande porque me reconhece dentro de ti. Essa dor é pequena, não aumente isso. Acalme seu coração, aquieta sua alma, somente você poderá fazer isso. 

Você é único! Foi a última frase que saiu de sua boca antes de ir embora. Ele falou isso olhando dentro dos meus olhos, enquanto segurava minha cabeça. Uma emoção toma conta de mim e eu não estou conseguindo mais escrever. As ideias não se foram, elas navegaram em mim como peixes no mar. Sinto tudo revirando, isso precisa ser feito. Estou com medo de sofrer amanhã, eu não quero, eu não irei. Tudo vai ficar bem. 

Não consigo escrever mais nada.

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