O fogo nunca dorme, o fogo nunca apagará




Por esses dias eu ando esgotado, parece que as minhas forças acabaram e a minha criatividade tirou férias. Sinto-me como um verdadeiro indigente que tem seguido a vida, somente seguido, sem muito ânimo e sem tantos encaminhamentos. Há a presença de uma sensação estranha de flutuação, parece que as coisas que acontecem não estão acontecendo e que eu que deveria estar ciente de tudo, não passo de um expectador.

Não há novidade, inovação, nem criatividade. Existem alguns poucos sorrisos que solto vez ou outra quando estou com pessoas mais próximas. Um sorriso amarelo que denuncia a mesmice, essa por sua vez me toma. Mesmos dias e pessoas, mesma desvontade de fazer as coisas, as coisas na realidade já não tem importância, estão ali e por ali ficam mesmo. 

O mesmo abajur de sempre, com a mesma luz, iluminando o mesmo quarto, com a mesma cama no centro, o mesmo guarda-roupa, o mesmo caixote servindo como mesa de cabeceira. Nada mudou, é de uma mesmice fúnebre. Queria que fosse diferente, mas não é.

Dias atrás algo diferente aconteceu, pensei que seria uma saída para algo novo, não foi. Várias coisas do passado vieram a tona. Coisas que insisto em manter vivas. Não me curei de algumas feridas e nem me recuperei de algumas doações. Doei demais, meu corpo ainda não conseguiu se reconstituir disso tudo. Existo porque a vida quis assim, mas não sei ainda porque essa existência precisa ser permeada por dor, as vezes pela falta dela, pela falta de qualquer sensação que faça as coisas mudarem, mexerem. Tenho vergonha de estar assumindo isso tudo aqui, de coração aberto para vocês, por vezes tenho a sensação de que meu sorriso amarelo consegue disfarçar bem, por outras sinto que ele não engana nem a mim mesmo. Quisera eu conseguir me enganar, acho que o enredo de minha vida seria mais interessante. Mas não consigo e isso machuca, sinto uma sensação de impotência, de mediocridade para com os outros por não conseguir ofertar o melhor de mim. Preciso dizer que nem tenho meu melhor. 

Tudo está tão parado que até o vento parece que não sopra mais como antes. Outrora eu sentia o vento, gelado ou quente dependendo da época do ano, hoje nem isso eu sinto. Parece que ele decidiu não soprar mais para mim, talvez escolheu rumos melhores, pessoas mais interessantes para refrescar, eu sei que sou desinteressante até por demais. O vento nem suas variantes me querem, até uma tosse horrenda de quem fuma me tomou, talvez seja o pouco ar que me toca gritando ao mundo que não quer estar comigo. 

...

A esperança quer partir, me abandonar. Eu estou no fundo do poço, bem no fundo. Mas o fio da meada que me permite viver, mesmo em meio a escuridão, em alguma medida acredita em mim. Não entendo o motivo disso. Mas o fio da meada não me deixa. E enquanto estou aqui no fundo do poço eu escuto a voz de Cristo, me dizendo bem baixinho que eu não estou sozinho, Ele estará aqui comigo o tempo que eu precisar. Eu peço para Ele ir embora, me envergonho do fato de me ver nessa situação. Roupas sujas, falta de cuidado, em alguma medida estou matando a sua obra. Ele continua aqui, decidiu me abraçar e ficar quietinho. A sua presença me basta.

Eu posso ouvir os meus demônios sussurrando em meus ouvidos, eles dizem que o fim está próximo. Na mesma hora, Cristo levanta seus braços e tampa meus ouvidos. Ele gruda seu nariz no meu e me encara, eu fecho os olhos, eu tento fugir. Ele segura minha cabeça e me olha fundo. Me sinto a pior entre as piores coisas do mundo. Me sinto sujo, imundo, impuro. Ele me olha. Seu olho brilha e vejo chamas de fogo. No meio desse fogo eu vejo folhas queimando. - Que folhas são essas? Eu pergunto, com o bafo de horas em silêncio. Ele não fala nada, segura minha cabeça e continua me olhando. O fogo continua lá queimando. Água começa a cair e molhar o fogo presente em seus olhos, o fogo não apaga. Trovões soam no infinito e caem em cima do fogo, o fogo não se move. As folhas que queimavam, começam a voar, elas estão limpas, algo está escrito em uma delas, não consigo ver. Ele sussurra: o fogo nunca apagará e eu nunca desistirei de você. Já não tenho mais controle do meu corpo, desmaio.

Estou em seus braços, em transe. Estou ali, mas não tenho domínio sobre meu corpo. Em cada detalhe da minha história, Ele queima. Em cada página da minha história, Ele escreve um pedacinho. Eu escrevo, Ele me guia. Alí, deitado em seus braços, vou abrindo os braços e me entregando aos sussurros da morte, ela vem dançando em minha direção. É o fim, cheguei ao fim disso tudo. O ar vai sumindo do meu interior, minha pele começa a ressecar, a água evapora e eu sorrio, um sorriso amarelo para a morte. 

Escuto um som como de um trovão, o som grita, geme, chora. Cristo está em silêncio e continua me encarando, seu olhar é puro e queima. Meu espírito estremece ao som do trovão. - Senhor, está tão difícil caminhar, parece que eu perdi meu chão. Ele abre meus olhos, suas mãos começam a pegar fogo, Ele sopra em meus olhos e eu grito um grito como nunca antes soado. Meu corpo vai se elevando e Ele enfia as mãos dentro de meus pulmões, eu sinto. Eu grito. - A sua história não acaba aqui.

...

Eu estou no chão da sala, nú, de roupa e de mim. Eu choro, as lágrimas escorrem em meu corpo e me molham. Eu levanto e vou em direção ao banheiro, eu preciso de um banho que lave tudo. Paro em frente ao espelho e a vontade é de sorrir, sorrir e chorar, uma emoção me toma e eu me abraço. - Eu te amo. Falo baixinho para eu mesmo. - Não desiste, muitos olhos ainda precisam ver esse fogo, continuo. E eu oro, oro em uma língua que eu não entendo, mas entendo. Ela faz parte de mim, como se fizesse parte de minha essência. Eu danço, danço uma música genuína que não se compara ao som emitido pelas melhores orquestras. Eu flutuo, meu corpo dança movimentado pelo vento. E eu agradeço.

...

"Não deixe nada te dizer quem você é. Você é o que vê em mim", eu ouvi.

Comentários

  1. Poxa. Nossa. Não sei nem o que dizer sobre que eu li. Ou melhor. Sei. Você é um Ser Humano único. Umas das pessoas mais belas que já conheci. :-)

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  2. Meu amor, que lindo ler sua essência. Seu texto falou ao meu coração e apresenta a dor de alguém que nasceu para ser grande e refletir a luz de Jesus nesta Terra por onde passar. Vamos conversar sobre isso offline. Te amo!

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