A competência assessorial: habilidades e conhecimentos em movimento constante

Foto de Alberto Seveso


Um debate importante a ser levantado dentro do secretariado é aquele que direciona para a compreensão do fazimento profissional diário, sabendo pontuar, questionar e refletir as nossas competência e habilidades. 

Nos outros textos, comento que não somos uma ciência, o que não direciona para a não reflexão de nossa ação cotidiana. Além disso, comento que somos assessoras/es executivas/os, dotadas/os de conhecimentos específicos do exercício assessorial. Não obstante, ainda afirmo que sofremos alguns paradigmas negativos que nos impedem, em grande medida, de ocuparmos postos maiores dentro das organizações. Apresento também o motivo pelo qual as técnicas secretariais são mais avançadas que as rotinas administrativas, no que se refere à prática diária dentro do escritório.

Somos sim profissionais de excelência. Ao colocar isso, afirmo que temos uma formação excelente. Formação essa que permeia diversas áreas do conhecimento e nos permite a visão do todo organizacional. Em uma era de hiper fragmentação do conhecimento, conseguimos atuar de modo amplo e estratégico, isso porque nossa formação nos permite tal perfil. Talvez você já tenha ouvido alguém questionar, ou até mesmo questionou, sobre o porquê de determinado conteúdo ser trabalhado dentro do curso de secretariado. Nem sempre conseguimos ver sentido de imediato em conteúdos que ainda não aplicamos no nosso fazer diário, mas com o passar do tempo a gente entende e consegue explorá-lo de modo a obter resultados positivos e otimizados dentro do local onde trabalhamos.

Esses conteúdos, que passarei a chamar de conhecimentos (alguns teóricos e teóricas já trabalham essa ideia), são a base do processo de desenvolvimento de habilidades e competência pela/o profissional de secretariado. A nossa formação não só permite uma maior compreensão do mundo, mas também nos permite desenvolvermos funções cognitivas avançadas (habilidades específicas que não dominávamos antes de nossa formação). Não saímos da faculdade com vários conhecimentos acumulados, saímos com conhecimentos articulados que se materializam no exercício da profissão, por meio de habilidades em ação. 

As habilidades são conhecimentos articulados. Conhecimentos aprendidos, construídos e ressignificados. Sim, ressignificados, uma vez que pegamos conhecimentos de outras áreas, muitas vezes com aplicação elaborada, e trazemos para a nossa realidade profissional, agregando novos sentidos para ele. Um exemplo disso é o arquivamento de documentos: na arquivologia há todo um processo sistematizado de arquivamento, na nossa ação nós buscamos compreender essa sistematização de modo a encontrar alternativas mais simples e diretas que nos ajudem a manter e conservar as informações do setor e da empresa onde trabalhamos. Pegamos algo elaboradíssimo e simplificamos de modo a atender as nossas necessidades diárias. Vale dizer que não estou afirmando que descaracterizamos o fazer complexo de outras áreas, mas que aplicamos essa ação de modo estratégico às nossas necessidades, não desmerecendo quem aplica com rigor aquilo, mas ressignificando para atender demandas específicas.

As nossas habilidades são compostas por conhecimentos. Para melhor elucidar essa afirmação, proponho um exemplo: uma de nossas habilidades é a organização da agenda, para fazer isso precisamos deter de alguns conhecimentos básicos, tais como: saber ler, escrever, interpretar textos, saber se comunicar, entender a diferença dos compromissos e tarefas e saber elencá-los na agenda de acordo com a urgência e prioridade, saber gerir o tempo seu e da/o executiva/o e por aí vai. O agendar é, na realidade, a articulação de todos esses conhecimentos com foco em uma ação de excelência.

No meu texto Para uma concepção crítica das técnicas secretariais: quando o exercício profissional vai além das rotinas administrativas, comento melhor sobre as principais habilidades que dominamos no nosso dia a dia. Elas são habilidades técnicas, atitudinais e relacionais.

As habilidades técnicas estão ligadas ao fazimento da coisa, a parte prática, a mão na massa, com foco em resultados objetivos, elas são a aplicação no exercício secretarial. As atitudinais estão estritamente ligadas às técnicas, elas funcionam como ferramentas motivadoras do organismo para que a ação seja feita da melhor forma possível, elas motivam a ação, dão-lhe sentido. Não distante das demais, as relacionais direcionam para um movimento de entendimento da importância e valorização do outro para e no meu exercício profissional, elas estão ligadas às questões sociais do exercício profissional. 

Essas habilidades articuladas compõem as técnicas secretariais e ao mesmo tempo nos agregam a capacidade de sermos competentes como assessoras executivas e assessores executivos. Temos aí uma nova questão importante: a competência relacionada ao ser assessor/a executivo/a. Acácia Kuenzer (2002) é bem direta ao nos propor que a competência é a capacidade de agir, em situações previstas e não previstas, com rapidez e eficiência, articulando conhecimentos tácitos e científicos a experiências de vida e laborais vivenciadas ao longo das histórias de vida. ... vinculada à idéia de solucionar problemas, mobilizando conhecimentos de forma transdisciplinar a comportamentos e habilidades psicofísicas, e transferindo-os para novas situações; supõe, portanto, a capacidade de atuar mobilizando conhecimentos.

Mobilizamos conhecimentos específicos para atender certas demandas que nos exigem habilidades específicas, de modo que com isso conseguimos afirmar e/ou reafirmar a nossa competência como assessoras/es executivas/os. A competência é algo maior, o ser e o fazer de modo amplo. A fragmentação dessa competência em domínios menores que auxiliam na manutenção dela é o que chamamos de habilidades. Já essas habilidades só existem por causa da articulação de conhecimentos. 

Sei ler, domino os cálculos básicos, consigo me comunicar com os outros, compreendo a necessidade organizacional daquele momento, conheço a visão da minha empresa e as limitações dela. Com base nesses conhecimentos articulados desenvolvo as habilidades de negociação e liderança, da comunicação não violenta, da otimização de recursos e do atendimento específico de demandas direcionadas. Essas habilidades em ação me permitem ser um bom organizador de eventos, por exemplo. Esse é só um exemplo, não limitante, para tentar aplicar melhor a ideia de conhecimentos, habilidades e competência.

Para desenvolver habilidades específicas e formar assessoras/es executivas/os competentes, é importante que a instituição formadora atente-se para a articulação de conhecimentos, contextualizando-os ao fazimento da profissão. O conteúdo não deve ser apresentado de forma fragmentada e ficar por isso. Ele precisa ter sentido na ação profissional. Precisamos sempre lembrar que fazemos parte das ciências sociais aplicadas, logo a aplicação deve ser uma constante em nossa formação. Uma aplicação reflexiva, sempre. É muito comum ver a formação da competência assessorial acontecer dentro do escritório, quando a/o profissional começa a atuar na área, dependendo do cenário, caso não consiga administrar essa formação intensiva, tal profissional acaba até por perder o emprego. O que quero dizer com isso é que a fragmentação do conhecimento e da formação em nossas instituições formais de ensino não auspiciam que nossas/os discentes saiam da faculdade como assessoras e assessores competentes. Apresentamos conhecimentos, mas muitas vezes não os articulamos de modo a fazer sentido dentro da formação. Isso é um problema que precisamos discutir e trabalhar. Todavia, nem tudo é falha e erro. Agora deixando os termos técnicos de lado, ahazamos muito em nossas formações, mesmo fragmentada temos a formação profissional mais completa dentro das ciências sociais aplicadas, podemos atuar como assessores em qualquer empresa, de qualquer ramo. A assessoria vai ter um esqueleto comum em todas as empresas, poderá até exigir uma formação específica em nível de pós graduação, mas o esqueleto temos e dominamos. Junto a isso, em nossas formações experimentamos várias mediações que nos permitem desenvolvermos o conjunto de habilidades necessárias para nosso exercício, uma dessas mediações é a organização de eventos. Essa, que eu considero a melhor e mais completa mediação educativa na formação de profissionais de secretariado. Quer saber porque defendo essa tese? Te conto na próxima sexta-feira (rs). 

P.S.: Sexta-feira que vem lanço um novo texto. Falarei sobre a organização de eventos como mediação educativa, como ela articula habilidades distintas e o porquê dela se apresentar como uma das mediações mais completas para a formação secretarial. Caso queira ler sobre outros assuntos, deixe nos comentários a sua sugestão que podemos alimentar debates novos. No mais, obrigado demais pela visita. Volte sempre, a casa é sua também.


Referências

KUENZER, Acacia Z. Conhecimento e competências no trabalho e na escola. Boletim Técnico do Senac, Rio de Janeiro, v.28, n.2 mai/ago.,2002.
VAZQUEZ, A. S. Filosofia da praxis .Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1968, p. 117.
VIGOTSKY, L. A formação social da mente. São Paulo, Martins Fontes, 1984.


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