Para não falar de amor


Por Roberto Lima

Eu esperei tanto pela sua volta. Todos os dias o meu coração clamava por sua presença, mesmo sabendo a dor que aquilo poderia lhe trazer. Mesmo em silêncio, um silêncio fúnebre, ele esperava sua volta. O consciente focava em tudo, menos em você, o subconsciente te buscava em cada canto, em cada sorriso, em cada olhar, gesto, cheiro, toque... qualquer pedacinho de mundo que me fizesse te sentir mais próximo era acalentador para meu coração.


Você voltou, mas não ficou. Fui testado e fui reprovado. Essa é uma verdade que me dói. Suas palavras ainda estão aqui. Minhas entranhas não me deixam esquecer cada palavra cortante que me proferiu. Elas ainda me cortam, dia e noite. A desesperança que veio com elas, me maltrata e me sangra diariamente.



A dor é infinita. Nesse cenário, vou fantasiando dias, fatos, casos, pessoas e histórias. Finjo que a vida está seguindo, finjo que as coisas estão se ajustando, finjo que os sorrisos são verdadeiros. Finjo tanto que as vezes finjo de fingir. Enquanto sorrio por fora, choro por dentro. Os dias já não os mesmos, desde sua última vinda. Nada tem sido igual. Os lugares, os objetos, os sentimentos, as inquietações, nada tem sido igual como era antes.



Quatro anos se passaram, depois daquele dia em que me deu um beijo singelo nas escadarias, dizendo que ia, mas voltava. Disse aquilo só para não me magoar mais ainda. Meu coração precisava de algo a se apegar e você sabia disso. Se foi e por lá criou raízes, tomou novos rumos e assim me esqueceu (talvez finja que me esqueceu, está aí um fato que não ouso tocar e nem botar crença).



Meu amor adormeceu. Mentira! Ele sempre se manteve vivo, dia e noite, quisera eu ou não. Jamais esqueci seu olhar manso, seu nariz de raposa, seu sorriso gostoso de se ver, seus lábios carnudos, que quando intimidado, mordia-os de modo vergonhoso. Seu toque suave sempre esteve em mim, como tatuagem que não apaga. 
Você ousou voltar. Veio pouco, ficou pouco e deu pouco. Um pouco tão pouquinho que poderia ser nada, mas não foi. Foi tudo para mim e para meu coração sofrido. Você me olhava com um olhar tão questionador, tão nostálgico, que em alguns momentos sentia a presença do menino que me deixou a quatro anos atrás. Quando notava, tomava posse da situação e, como se fosse um rei indo a guerra, vestia uma armadura dourada, para que nada te atingisse, nem mesmo o meu sentimento que fluía pelos meus poros.



Durante os dias em que esteve comigo, eu não dormi. Admirava-te. Poucos cochilos rolavam, era como se um sonho estivesse virando realidade, logo não havia mais a necessidade de sonhar. A sua presença em minha cama não me deixava dormir. Queria me aproximar de você, te beijar, te tocar, aproveitar sua presença em minhas cobertas. 



Minha casa tem seu cheiro. Esse cheiro tem me torturado. A estabilidade emocional já não existe. O prazer da vida me foi roubado. Nem mesmo o fim de um mestrado me alegra. Você me tomou, me cortou e me deixou sangrando no meio do nada. 



Te amo tanto que até chego a desacreditar no amor. Que espécie de sentimento é esse que não me deixa ser feliz? A tua ausência me dói tanto. Queria eu poder ter controle disso, já teria arrancado de dentro de mim. 



[...]



Vou levando a vida. As coisas aqui acontecem como o previsto, nenhuma novidade, nenhuma alegria nova, nenhum rumo novo, só mesmo lembranças e acontecimentos rotineiros. A rotina tem me dominado, tem ocupado todos os espaços para não pensar em você. Está sendo inútil a tentativa.



No mais, ainda guardo memórias de dias que já não voltam mais.

"Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?"
The Blower's Daughter- Damien Rice

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