Pabllo Vittar: precisamos refletir e problematizar esse fenômeno

Foto by Josh Caudwell

Por algumas vezes me deparei com a pergunta: O que você acha sobre Pabllo Vittar? 

Não entendo muito bem porque perguntam isso para mim, talvez por eu ter uma mente aberta sobre várias coisas, talvez por eu ser professor ou por ter feito um mestrado em direitos humanos. Pode ser por tantos motivos que no fim sempre fico inquietado em o que dizer sobre Pabllo.

Percebo que algumas pessoas esperam que eu fale mal, outras perguntam pela curiosidade de entender quem é Pabllo no contexto contemporâneo. Leio muito e confesso que ainda hoje fico em dúvida sobre várias coisas, mas no fim sempre tento mediar minha visão sobre algo sem me deixar ficar preso em uma única perspectiva. Existem tantas coisas nas entrelinhas que precisamos refletir.

Algumas pessoas diriam que por eu ser um homem branco cisgenero não poderia comentar nada sobre, por causa da questão do local de fala, mas confesso (muitos diriam que pelo meu simples "mas" eu já estou errado) que fico receoso com alguns debates polarizados. Reconheço que tenho um local de fala privilegiado ao tempo em que me permito emitir minha opinião sobre vários temas que alguns diriam que eu não tenho propriedade para tal. O importante é termos cuidado para não ficarmos no senso comum e que procuremos respaldar os nossos posicionamentos, de modo que não falemos e reforcemos alguns discursos excludentes e violentos. Além disso é importante reconhecer a luta da outra parte, não minimizando nem relativizando algumas questões que afetam diretamente a dignidade dela, refiro-me aos oprimidos.

Voltando a Pabllo Vittar, não podemos desvalidar todas as conquistas dela que, consequentemente tem refletido sobre o mundo LGBTQI+. A Pabllo tem empoderado várias e vários jovens em todo o mundo, tem desconstruído alguns paradigmas violentos encontrados em nossa sociedade tão machista (não excluo a comunidade LGBTQI+ desse grupo, que por vezes tem se mostrado, extremamente heteronormativa e recheada de padrões. O discurso de "eu respeito, mas não curto" é uma prova viva disso, mas deixamos isso para outro momento) e ocupado espaços ainda não alcançados por uma drag. 

Agora pergunto: será que Pabllo tem consciência disso tudo? A assessoria dela está preparada para uma atuação não só relacionada à imprensa, mas de assessoria política? O local que Pabllo ocupa hoje traz consigo responsabilidades e uma delas é a política: a luta por uma sociedade não violenta para a comunidade LGBTQI+. Uma amiga, certa vez, me perguntou se ela teria mesmo que ter essa postura política, minha resposta foi sim e explico o motivo disso. Ao ser violentada, diariamente por ser gay quando mais nova e ainda hoje, efeminada, Pabllo conhece a dor enfrentada por muitas e muitos jovens brasileiros gays, efeminados e de periferia, silenciar-se perante isso é o mesmo que corroborar com a situação.

Outra questão para refletirmos: em que medida o empoderamento proposto por Pabllo tem sido consciente e não violento? Falo de ações intencionalizadas e problematizadoras que direcionam para a construção de uma sociedade não violenta para ninguém, não só para o grupo a que faço parte.

Lembro de alguns episódios que aconteceram nesses últimos tempos que me fez refletir muito sobre alguns posicionamentos da Pabllo Vittar. O primeiro deles foi a polêmica envolvendo a Cláudia Leitte. Na ocasião, apareceram algumas postagens da Pabllo de 2012 onde criticava Cláudia Leitte e lançava à ela algumas falas violentas. Nisso, ao reaparecer essas postagens, a drag manteve-se calada enquanto seus fãs se posicionaram, violentamente afirmando que ela não havia mentido ao dizer que Cláudia era "azeda". Muitos dos fãs seguidores da drag não foram só violentos nos comentários, mas machistas e misóginos. Em relação a nossa sociedade machista, caberia um posicionamento de Pabllo desnaturalizando esse tipo de postura de muitos de seus seguidores, evitando assim a reprodução de cenários de violência contra mulheres. Esse posicionamento não veio.

Outra questão que achei alarmante foi o caso do clipe "Todo dia" onde Pabllo interpreta, junto com Rico Dalasam, a música composta por ele. Rico compôs, criou a melodia e é intérprete, todavia recebia somente como compositor da canção e pela melodia. Rico solicita então o recebimento dos direitos cabíveis a ele no que concerne à interpretação da música. Nesse meio caminho, a equipe de Pabllo se posiciona chamando essa atitude do cantor de "oportunismo", influenciado por causa do "sucesso estrondoso" de Pabllo. Nesse momento, entra em cena mais um monte de fãs criticando a postura de Rico, por vezes as ofensas tomaram um ar racista, sim. Pabllo novamente silenciou-se perante isso e não se pronunciou com o objetivo de desnaturalizar cenários de violência dentro da própria comunidade LGBTQI+. Vejam, não foram só casos de violência verbal, mas de racismo. Enquanto isso acontecia, Pabllo fez uma postagem dizendo “Eu tô muito feliz amor e nada vai estragar esse momento”. 

Em que medida esse empoderamento é baseado no respeito ao próximo, em uma postura dialógica, não violenta e consciente? Retomo essa pergunta. É um empoderamento para o enfrentamento raso ou para a construção de uma nova sociedade onde não exista cenários de violação de direitos e todos tenham uma vida digna de ser vivida? Nesse meio caminho, eu posso violentar o direito do outro, considerado minoria e também marginalizado, em prol do meu? Vários questionamentos.

Ao tornar-se a drag mais famosa do mundo, pelo menos nas redes sociais, vem junto com a fama a necessidade de uma postura assertiva e de conscientização de seus fãs, para que se empoderem ao tempo em que auxiliem no empoderamento das outras "minorias", em um processo de ajuda contínua e articulada. Ao permitir reproduções de cenários de violência, corroboramos com eles. Aí a necessidade de uma postura de enfrentamento, não raso, mas consciente e respaldado. Está aí o calcanhar de Aquiles que a equipe de Pabllo precisa encarar.

Nos últimos tempos, tenho visto algumas falas bem interessantes de Pabllo, por exemplo no caso de gordofobia em que se envolveu nos últimos dias. Ela pediu perdão e disse que esse pensamento já não era mais válido, assumiu a postagem e o erro. Mas também não aproveitou a oportunidade para problematizar a gordofobia com seus milhões de seguidores.

Ao tempo em que pontuo essas questões, não desvalido tudo que Pabllo tem representado hoje, e nem poderia fazer isso. Pabllo é um fenômeno, que necessita de uma assessoria política consolidada para que seu sucesso alcance resultados positivos no que se refere ao enfrentamento dos cenários de violência e a construção de uma consciência crítica de seu público, baseada no diálogo, no respeito ao próximo e na ajuda dos outros oprimidos na luta por direitos.

Não sou fã de Pabllo Vittar, escuto suas músicas e danço, loucamente. Ao tempo em que faço isso, busco conhecer as posturas adotadas pela cantora. Faço isso em relação aos cantores que escuto, pois acredito que a coerência deve haver. Pabllo é nova e tem uma trajetória toda a viver, que ela saiba escolher bem seus mentores nessa trajetória e que juntos continuemos cantando e valorizando a diversidade humana.

Comentários

  1. Amigo, seu texto reflete sua coerência à sua formação acadêmica e às sua postura cidadã. Que lindo ver um texto tão claro e sóbrio e como disse Simara, baseado na comunicação não violenta. Um grande beijo!

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    1. Amiga,
      Nem sempre conseguimos ter uma postura crítica baseada em um processo reflexivo. Vivemos em uma era de partidos, ou você é um ou outro, e nem sempre será assim.
      Obrigado pela visita ❤

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