Ser efeminado em uma sociedade doente: uma análise antropológica

Desenho de Adara Sánchez
AVISO: Neste texto, há o uso de palavrões e termos “baixos”.

Esses dias estive pensando: o mundo é tão lindo… Não, o mundo não é lindo.

Sabe aqueles dias que você acorda e começa a revisitar os anos que passaram? Você visita aquelas salas repletas de retratos que guardam em si memórias de um dia que passou e ficou. As vezes, memórias que você não se permitiu reviver, nem tocá-las, por causa do peso e da carga que elas trazem consigo.

Alguns meses atrás, eu não me permitiria reviver essas lembranças. Durante muito tempo acreditei que o melhor era “esquecer” tudo, guardar dentro de uma caixinha lá em cima do guarda-roupa e fingir que não se sabe de nada. E nessa brincadeira, a gente vai deixando de lado e por deixar de lado, não nos permitimos sofrer, chorar, sorrir e experimentar as sensações que a vida tem nos proporcionado. E essas lembranças vão ficando e moldando nossas ações futuras e, pelo incrível que pareça, nem sempre estamos cientes do quanto temos das memórias que não queremos ter.

“A vida já é tão dura, que é melhor ignorarmos tudo, sorrirmos e tocar em frente”. Sempre ouvi que tudo daria certo, sempre disse que tudo daria certo… E você vai criando uma capa, uma crosta, um casco, que vai te protegendo do outro, do mundo, do estrangeiro. E como numa aplicação de botox, você plastifica seu rosto, deixando-o sempre com um sorriso grande e amarelo.

Não lhe é permitido ser quem você quer ser. “Não chore, parece uma mulherzinha”. “Isso é roupa de mulher, não é de homem”. “Não ande assim, vão rir de sua cara na rua”. “Não se porte desse jeito, vão acabar te batendo na rua”. “Ser gay até pode, mas ficar de safadeza na frente dos outros não dá”. “Mulher de respeito não usa roupa desse tamanho”. “Não fica de bom tom um homem ficar demonstrando sentimentalidades para outro”. “Vish, ele me elogiou, deve ser baitola”. “Oxe, para com essa viadagem (a sociedade espera que eu repreenda todo e qualquer tipo de afeição de um gay para comigo)”. “Você não aparenta ser ativo, todo baitolado desse jeito”. “Você é afeminado? Eu respeito, mas não curto”.

E nessa onda de criarmos padrões aceitáveis, vamos categorizando o outro e como num ranking eu digo quem merece meu respeito, eu digo quem é aceitável, eu digo quem é bonito e quem é feio, digo quem é mais forte, quem é mais humano que o outro… e no mundo gay não é diferente.

Se para a sociedade uma puta é menos mulher que uma esposa recatada do lar e por isso muitos acreditam que merece menos respeito, no mundo gay, o efeminado é menos gay que o boy discreto e por isso, para muitos merece menos respeito. O efeminado é visto como uma subcategoria humana, dentro do mundo gay. Isso soa forte, não é mesmo? Isso não só soa, isso é forte.

O mundo gay é cruel com quem é efeminado. Isso é uma verdade, não fantasia.

Você pode ser a pessoa mais agradável do mundo, o simpático, o bonito, inteligente, ter a vida estruturada, ter o trabalho dos sonhos... nada disso valerá se você for efeminado. A afetação, como chamam, é um mal que deve ser combatido.

Vivemos em uma era de muita discrição e pouco orgulho, claro que temos exceções. Tente abrir um aplicativo gay (Hornet, Grindr e até o Tinder) e conte quantos caras estão sem camisa ou mostrando uma parte de seu corpo na foto do perfil, vai se surpreender. É um culto ao corpo. Corpos vazios. Você até irá encontrar corpos de pessoas estudadas, cultas, mas é bom salientar que nem sempre isso irá significar humanidade.

O ser efeminado é algo extremamente subjetivo, ou seja um carinha pode te achar efeminado ao tempo em que outro não acha. Uma atitude pode ser efeminada. Um sorriso pode ser efeminado. Uma mexida no cabelo. Isso é abominável, para muitos.

Todo dia você ouvirá que precisa se portar como homem, isso dentro do próprio mundo gay. Você sofre preconceitos do mundo em geral e do grupo a qual tenta se encaixar. Você precisa malhar, usar roupas discretas, ouvir determinadas músicas, usar determinados acessórios, cortar o cabelo de determinada forma. Temos tantos bombados por aí, extremamente efeminados, que abominam a efeminação e que é capaz de cair na briga se alguém disser que ele é efeminado.

Para o mundo hétero, em particular para mulheres, ao efeminado é cabido o papel de ser o divertido do grupo, aquele que sorri e faz o grupo sorrir, o que tem a piada na ponta da língua, o que zoa com tudo. A amizade do efeminado é de grande valor, ele é o conselheiro, o que sabe das dicas de como satisfazer o boy, o que sabe arrumar cabelo, fazer maquiagem, o que sabe sobre moda, o que sabe sobre estilo, o que sabe sobre etiqueta. Onde já se viu um efeminado que não sabe fazer nada!? Muitas vezes, por falta de oportunidade no mercado de trabalho (SIM, o mercado de trabalho é preconceituoso com o efeminado), ele se capacita em outras áreas para conseguir se sustentar (bordado, costura, beleza…). “Não fica vistoso para a empresa ter um viado na recepção, recebendo o público”.

Agora pasmem: e esses “dotes” são muito valorizados, por exemplo, dentro de certas congregações religiosas: “nossa, ele é tão caprichoso, coloca para decorar a igreja no evento tal”, “irmão, tem como você arrumar o cabelo das irmãs no culto tal?”, “ele é tão delicado e cuidadoso, coloque para cuidar das crianças, para reger, para cantar”. Mas sempre que possível lhe é informado que ser gay é ser abominável. Mas enfim, não quero entrar nessa polêmica por agora, fica para um post futuro.

E ao efeminado, cabe o adjetivo de “mulherzinha”, como se ser “mulherzinha” fosse ser menos ou ser inferior. Se ser mulher nessa sociedade machista já é complicado, imagina ser “mulherzinha”. A “mulherzinha” é o ser mínimo, é uma subcategoria da subcategoria. É o famoso viado que eu não quero ser visto no lado dele, porque pode sujar minha imagem. É o baitola que não quero namorar, pois minha família não aceitará. Imagina: como irei ao cinema, sem ser notado? Não quero que as pessoas me olhem com olhar de reprovação. Quero ser aceito, aceito por todos, aceito pela sociedade. “Posso até comer, afinal ele é todo limpinho, depiladinho, sabe fazer um oral gostoso, mas namorar não”. E nessa onda eu vou marginalizando o efeminado, em prol de uma falsa aceitação por causa de minha masculinidade ou discrição.

Ao discreto cabe tudo, ele é macho, é o macho alfa, é o gostoso que as pessoas olham e falam: “que desperdício”. Ao boy discreto a sociedade se rende. Ele é o amigo do futebol, o amigo das bebedeiras, o amigo das viagens, aquele que eu como mulher acho aceitável ser confundida como a namorada ou esposa dele. Sim, o mundo recebeu muito bem o discreto, o mundo adora o discreto, o mundo incentiva o discreto, ao mesmo tempo em que demoniza o efeminado.

É como se existissem níveis, onde o gay discreto (ativo, fora do meio) é mais “homem” (e por ser mais homem, merece meu respeito) e o efeminado (a passiva do grupo, o viado, o baitola, a bichinha) é menos. E agora, não é querendo quantificar a dor do outro, mas imagina quem sofre mais nessa história: o boy discreto ativo que é venerado pelas pessoas como um “deus grego” ou o efeminado que escuta todo e qualquer tipo de xingamento nas ruas, que sofre por não ser aceito pela sociedade, que sofre por não ser aceito pela família, que apanha por ser o viadinho, que sofre solitariamente, afinal ele não é o discreto e por isso não lhe cabe o direito de amar e ser amado, que se ilude de amor, que ora para Deus lhe libertar dessa saga, que nas noites solitárias chora por se achar menos, mas que no outro dia sorri para todos, faz piada da dor, anima o grupo, mesmo quando seu interior está devastado… Quem? Quem é o mais forte nessa história?

Quantos afeminados morreram para que o discreto tivesse essa aceitação toda na sociedade? Quantos apanham (fisicamente, verbalmente, institucionalmente...) diariamente só pelo simples fato de serem quem são? Quantos se matam diariamente fugindo disso tudo?

--------------º--------------

Ser feminino não é errado. Desqualificar e condenar a efeminação de alguém é simplesmente manter o discurso machista e misógino de nossa sociedade. Você está livre para amar e ficar com quem você quiser, mas se você sente tesão em um efeminado te chupando e dando para você e ao mesmo tempo não tem coragem de pedir em namoro por vergonha de estar ao lado dele, você é um hipócrita doente, trate-se.

Que nada e ninguém nos defina além de nós mesmos, falo de todas as relações humanas, não somente as relacionadas à sexualidade humana. Se a definição te desmerece como pessoa, ela somente revela o quanto o outro é pequeno como pessoa.


P.S.: Isso não é um desabafo, nem uma biografia, são pensamentos devaneios que de mim um pouco tem, mas que do mundo mais tem. 

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