Um pouco de história: QNG 1



Por Jefferson Sampaio

Ele estava de mudança. O lugar onde ele morava com a família ia ser reformado e por isso necessitavam de uma nova residência. Fomos limpar o local e tentar organizar, mesmo que de leve, as coisas, para que a mudança pudesse ser feita.

O barraco era pequeno, tinha uma sala conjugada com a cozinha, uma pequena área de serviço, dois quartos pequenos e um banheiro, lembro de minha estranheza para a porta de PVC dele, não gostava da sensação de não estar seguro dentro do banheiro… Aliás, banheiros sempre me trouxeram paz. Quando entro em um banheiro é como se o mundo parasse e eu tivesse a oportunidade de estar em um lugar que me permite ser eu mesmo, sem medos, sem pudor, sem ninguém enchendo meu saco sobre o meu corpo, minha cantoria ou minhas danças esquisitas.

Sempre demorei dentro do banheiro. As vezes, batendo uma punheta, noutras apenas jogando joguinhos bestas no IPAD, outras chorando e lembrando de besteiras da vida, já teve vezes que me permiti viajar escutando músicas nostálgicas. Ele sempre foi meu refúgio, o local onde eu poderia me desnudar de meus preconceitos e ser quem eu realmente era: um ser humano repleto de medos que necessita de um abrigo seguro.

Banheiros sempre foram mais que um local para banhar e fazer as necessidades fisiológicas, pelo menos para mim. Os azulejos, o chuveiro, a pia, o vaso, a tampa do vaso, o sabonete, o cheiro de shampoo, o lodo verde nos rejuntes da cerâmica, a janela, o espelho, a porta fechada e você consigo mesmo.
“-Sai desse banheiro, menino… as pessoas também querem usar.”


E decidimos dividir as tarefas, eu comecei limpando o banheiro, enquanto ele limpava a cozinha. Tudo estava muito sujo, por sinal parecia que não morava ninguém ali, de tão sujo que o local estava. O banheiro tinha crosta de lodo. Era tudo muito abafado e fechado. A luz entrava pela janela do quarto que seria dele, pela porta e por uma telha especial que clareava o ambiente. No mesmo lote havia um bloco de dois andares, onde moravam pessoas e tinham dois escritórios no térreo. E no fundo, três barracos. Penso que o barraco onde ele iria morar era o maior de todos.

Enquanto eu limpava os rejuntes das cerâmicas do banheiro, com a ajuda de uma faca velha, ele veio até mim e me abraçou por trás. Eu estava soado e um tanto que molhado. Ele me cheirou o cangote, deu-me um beijo e começou a me acariciar. O clima foi esquentando, ele me tomou em seus braços e por um momento me olhou. Um olhar diferente, de alguém que me amava, de alguém que me agradecia por eu estar ali com ele, de alguém que se sentia grato por ter-me em sua vida. Voltou a me beijar e em meio a carícias, abaixou minhas calças e em meio ao calor do momento, fizemos amor ali mesmo. Era bruto, mas não era sexo, era “seco”, mas não era sexo, era voraz, mas não era sexo, era profano, mas não era sexo. Era amor, nós nos amávamos.

Logo o irmão dele chegou e começou a gritar no portão. Corremos e nos arrumamos para ele não desconfiar de nada. Ele desconfiou, entrou olhando as coisas, provavelmente sentiu o cheiro de nosso momento, percebeu o suor que tomava conta de nossos corpos. Sorriu, mas não falou nada. Foi embora e nós ficamos ali, terminando de organizar as coisas.



Eu já disse que banheiros são especiais para mim? Eles podem se tornar o lugar mais extraordinário da sua casa, da sua vida e dos seus momentos. Tente.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Desventuras em série: sobre o Decreto nº 9262/2018 que extingue cargos e veta concursos

Para uma concepção crítica das técnicas secretariais: quando o exercício profissional vai além das rotinas administrativas

Secretariado X Assessoria: uma breve reflexão sobre a nomenclatura da profissão