Dos desamores da vida



Por Jefferson Sampaio

Eu não sou nada. Eu nunca fui nada. Quisera eu ser alguém para você.
Eu me despi
Já não podia viver preso em tecidos imaginários de mim
De mim, pois surgiram aqui
Minha mente projetou tudo 
Cada costura
Cada trama 
Cada estampa desbotada 
Um sublime esconderijo
Uma fina e protetora capa
Eu me cobri e pensei que assim eu poderia viver para sempre
Inútil, sou um belo de um inútil 
Devaneio falar de amor
Falar de amor para quem é pouco 
Pouco em tudo
No sorriso é pouco
Na vida é pouco
Pouco, sabe quando o pouco é pequeno? 
Pouquinho
Ele é assim, pouquinho 
Que não suporta viver sozinho no seu pouco e quer te levar junto
Com uma voz mansa, fala educada
Chegas a acreditar que é deveras muito 
Muito mesmo não é
Não passa de um quase nada
Um quase nada que me amordaça
...
Ele me cortou
Cortou e doeu
Doeu na alma, no espírito e na mente
Quisera eu que parasse aí
Não parou, doeu no corpo
Esse pedaço de carne gemeu
Para quê isso, Deus? 
Amaldiçoo-te, onde estiveres 
Que seu gozo finde
Que suas alegrias se vão 
Que seu sorriso, lindo, acabe
...
Minha matéria estremeceu 
Ela encolhia-se, queria afago
As vidas que vivem aqui em mim lutavam 
Que dor
Já não queria aquilo
Quisera a morte sorrir para mim
Iria para outra banda e lá viveria
Viveria
Assim não foi
Tudo gritava
O sofá velho comprado nos móveis usados
As almofadas baratas
O esquentante casaco verde
Era uma luta interna
As extremidades tremiam
Umas queriam o doce sopro da morte
Outras queriam vida
Morrer soava agradável 
A morte nunca dançou tão bonito
Seu sorriso opaco, pouco 
Conduzia-me, como num transe, ao seu encontro
Flutuava 
Sabe o vento que traz consigo o cheiro da infância? 
O mesmo que incredulamente traz o perfume de desmemórias agridoce,
O cheiro da pessoa amada
Assim, como esse vento, ela sumiu
A inércia fazia meu corpo sucumbir no chão
Uma voz dizia: 
- és mais forte que isso, levante!
Quisera eu conseguir tal proeza 
Chorei
Gritei 
.

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